Já nem lembro

Lembro de quando, num aniversário ou dia dos pais, te dei quinquilharias de pescaria. Corri esbaforida na loja que tem nas bordas do centro e só vende artigos desse tipo. Era um dia quente de céu muito azul e nuvens rarefeitas. Montei um kit com anzóis, iscas e outras amenidades das quais eu já nem lembro. Eu sei que eu enfiei tudo às pressas numa pequena caixa de papelão porque tinha que pegar uma carona que ficava na outra ponta da cidade. Nesse dia, você me disse que eu tinha demorado demais para chegar, mas pode ter sido em outro, porque eu já nem lembro.

Te entreguei a caixinha simples assim que acordei naquele domingo, mas talvez fosse sábado. Você estava na sala vendo sua TV de sempre e abriu sem grandes cerimônias, daquele seu jeito direto e reto que é meu de ser. Me disse que tinha tudo o que você gostava, balançando o anzol maior no ar. Gostou de tudo, mas a linha mesmo foi o que brilhou os olhos. Linha forte, para pescar com a canoa lá no meio do rio, ou do mar, eu já nem lembro, mas já ia usar na próxima viagem, falou animado. 

Eu lembro de você me fazer aquele ovo de comer de colherzinha. Eu tinha dificuldade de segurar a colher, então você arrumou uma colher de café que cabia perfeitamente entre todos os meus dedos de criança pequena. Você colocava o ovo dentro de uma xícara de café e quebrava a tampa da metade que ficava pra fora. Comíamos em pé mesmo, apoiados na pia da cozinha que eu ainda não alcançava. Era sempre no sábado, ou no domingo, mas também podia ser na terça, na quinta ou na sexta porque no fundo, no fundo eu já nem lembro. 

 Não consigo lembrar do cheiro dos seus cabelos brancos mais, que eu sempre beijava quando você estava sentado na mesa da cozinha. Mas eu lembro ainda da sensação macia de alisá-los. Eu já nem me lembro da nossa última conversa, nem do último aúdio. Mas eu lembro que naquela manhã, naquela derradeira manhã, você mandou a figurinha de bom dia de sempre às seis e onze. Tomou seu café melado, diferente do meu forte e pouco adoçado, e foi para a oficina. Carregou o carro com os fornos da semana. Às sete e pouco, riu e brincou com a vizinha da frente. Pouco antes de oito, descarregou os fornos na loja do cliente. 

Às dez, o telefone tocou.

O que mais aconteceu, eu já nem lembro. 

Certas coisas, eu prefiro esquecer.

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