Tentou colocar delicadamente o anjo por entre os galhos plásticos e poluentes do pinheiro verde. Era bonito. Tão delicado que era, escorregou por entre as folhas falsas cuja textura se assemelhavam a um porco-espinho. Maria Paula bufou e sem paciência empurrou o anjo de qualquer jeito, de modo a forçá-lo a enfeitar a maldita árvore mesmo a contragosto. A força foi tanta, que as asas douradas se soltaram na sua mão e ela se arrependeu imediatamente da violência cometida contra o pobre.
Ele a olhava de modo inquisidor.
A vontade de decorar a sala, que já não era muita, se desfez. Sentada no chão empoeirado olhou para os vários apetrechos natalinos espalhados ao seu redor. “Maldita hora que fui inventar tudo isso!” Persistiu, porém. Pegou uma bola vermelha e brilhante e encaixou vagarosamente em um dos galhos. Apesar do cuidado, a argola na ponta da bola se soltou e ela rolou pelo corredor. Maria Paula olhou mais uma vez para o anjo decepado jogado no chão e respirou fundo. Desistiu da decoração mais elaborada e enrolou o pisca-pisca de qualquer jeito na árvore. Até que não ficou ruim, pensou. Enfiou o plug na tomada na esperança das luzes brilhantes e coloridas espantarem um pouco do seu mau-humor, mas em vez disso, ouviu o que pareceu um estalo. Imediatamente todas as luzes do apartamento se apagaram e ela sentiu um cheiro de queimado. Pegou o celular na esperança de usar a lanterna para enxergar pelo menos o caminho até o quarto. Não teve sorte: tinha apenas 2% bateria. Aparentemente o natal daquele ano seguiria os mesmos moldes dos outros 11 meses: destruição em massa
Foi se escorando pelas paredes com cuidado até o quarto. Pisou em um sapato que estava jogado e se desequilibrou com o susto. Um passo em falso e meteu o dedinho do pé na cama. Gritou de dor enquanto pulava três vezes, dessa vez não em agradecimento a São Longuinho. Se jogou com força no colchão, mas algo duro atingiu suas costas em cheio. Uma outra dor se espalhou pelo seu corpo já castigado pela semana desgastante que havia tido. Lacrimejando, tateou ao redor em busca do que havia lhe atacado dessa vez.
Era o vibrador roxo, seu favorito. Um momento de glória! -falou alto, finalmente animada com alguma coisa. Abaixou a calcinha com pressa e rosqueou a parte de cima do brinquedo. Nada aconteceu. Nem um tremidinho. Nada! Mais cedo, havia esquecido além do xampu, de comprar as pilhas.
Em posição fetal, com a calcinha arriada e dores no dedinho e nas costas, abraçou o travesseiro com raiva. Pensou em Régis e sentiu mais raiva ainda. Lembrou do natal do ano anterior, bem melhor do que aquele. Meteu a boca no travesseiro e gritou até desgastar por completo as cordas vocais. Lágrimas roucas escorriam por sua cara inchada e molhavam o travesseiro.