Carta de Amor

26 de setembro de 2006

Meu querido,

Venho por meio destas informar que me encontro em estado lamurioso de saudades suas, pois há mais de 4320 minutos não nos falamos. Cheguei até a cogitar a possibilidade de você ter sido levado pela chuva, ou pior: ter encontrado a mulher de sua vida no supermercado enquanto comprava alfaces.

Vocês teriam começado o papo com um simples comentário sobre as hortaliças verdejantes e teriam descoberto uma infinidade de coisas em comum. Ao sair do estabelecimento comercial, se dirigiriam a um café, mas prefeririam o suco devido ao calor escaldante. Conversando seriam ambos assombrados por uma vontade mórbida de saber mais e mais e mais sobre o outro. 

Almoçariam juntos, continuando o agradável encontro ao acaso. Falariam de trabalho, mas prestariam atenção mesmo é nos detalhes: os olhos brilhantes te chamariam a atenção, enquanto ela se perguntaria como você ganhou a cicatriz no queixo. Cada vez mais hipnotizados, emendariam um sorvete para saber mais e mais e mais. E durante o cremoso geladinho descobririam o mesmo gosto bizarro por filmes trash.

Ririam da coincidência e num breve descuido, sua mão tocaria a dela. Um arrepio subiria pelo dedinho do pé, pernas, pela barriga fazendo cócegas. Os pelos eriçados engoliriam em seco antes da troca profunda de olhares. Num descuido, estariam presos num lancinante beijo: línguas, dentes, lábios ritmados numa animada salsa. Duendes fariam festa dentro, mãos roçariam cabelos no ritmo do sino. 

Ela disse sim.

Dali para uma lua-de-mel antecipada: nus um sobre o outro e uma sucessão de acontecimentos findos num abraço apertado em sono profundo. 

Deitado exatamente na mesma posição, as fotos dos filhos com os filhos na cabeceira da cama trazem uma sucessão de boas lembranças que sussurram: “Que feliz ida ao supermercado. Que sorte!”.

****************************

E foi assim que em um dia chuvoso eu o perdi definitivamente. Comprei uma bicicleta, adotei um vira-latas sujo e continuei dando aulas particulares de português… Aos 82 anos, apenas meu sobrinho mais novo me visita. Como previ, fiquei sozinha. E pensei: Por que não fui ao supermercado comprar alfaces?

Relincho

Cascos de cristal cavalgavam 

dunas lunares

Pisava

pi-sa-va

piii-saaa-va 

nuvens macias

A  r  e  i  a 

entre os 

de-

dos

O relincho mudo do mundo

nauseava

preso no estômago

Aquela ânsia… 

Insistente!

Arrepiava-lhe a crina

dos pés

ao topo

O grito ecoou forte da garganta momentos antes

BIG 

BANG!

O pescoço entrou em erupção

Regurgitou 

galáxias 

buracos negros

tudo 

no lugar dos dentes

Lava quente e pegajosa 

ping-ping-ping

pelo bico do peito

No solo

germinava

Reflorescendo florestas

e mares.

Essa é a verdadeira história da 

Criação:

Somente Eva.

Xurumelas de uma escritora (Ou do caos ingovernável de mim mesma)

Xurumelas de uma escritora (Ou do caos ingovernável de mim mesma)

Eu prometi que ia dedicar uma hora dos meus dias para esse romance. Agora são 20h50 e nada.

O choro do bebê me incomoda.  Mais do que isso: me irrita e enfurece.

Fúria: ultimamente, só tenho isso dentro de mim

Na real, eu nem sei porque insisto em escrever se no fundo eu acredito que tudo isso é em vão.

Eu fui em vão.

Sou em vão.

Um vão.

Tenho medo de Estela ser ruim e eu descobrir a grande farsa que sou. 

Uma mulher sem propósito.

Sem marido. Sem filhos. Com um emprego ruim

Sem sexo

e  distante da própria mãe.

Até que enfim, ele parou de berrar.

Aparentemente, além disso,

não gosto tanto assim de criança como eu achava.

Qual é o exercício de escrita de sexta, mesmo?

O da casa? 

Eu não sei, não me lembro.

Já faz tempo que fiz esse curso de escrita e a Geruza não me mandou ainda.

Eu não queria deixar pra última hora.

Mas eu já tinha escrito sobre a casa de Estela. Eu visitei a casa dela quando estava em busca de alguma informação sobre seu paradeiro. Ficava numa rua morta e a fachada amarela tinha partes escurecidas pelo mofo. O muro era baixo e o portão de ferro fazia um U invertido. Puxei o ferrolho para cima e empurrei com força o portão pesado que se abriu inteiro. Meu pai, bom serralheiro que era, daria um jeito de fazer um portão menor naquele portão imenso, eu pensei. No pequeno jardim da frente, pedras e um canteiro que parecia contornar a casa. Ali jogado uma pá e veneno para pragas de jardim. Duas janelas de ladrilho colorido deixavam ver de modo embaçado os móveis velhos da sala. Estela diria que eram Vintage. “Velha, é sua avó!”. Procurei por alguma chave escondida embaixo do tapete ou no vaso de espada de São Jorge. Nada. Restava o fundo da casa. 

Quando eu falei do corpo no necrotério, eu tava dizendo na verdade da minha paralisia escritiva para fazer esse livro. Um corpo paralizado diante das possibilidades. E se eu boto no papel a história dessa mulher velha, desbocada e dona de um Cabaré e descubro, novamente, que sou uma escritora medíocre? E se eu conto essa história e ela vira um sucesso? Medo é uma palavra que tem permeado a invenção de Estela. 

Sim, Estela, eu te inventei.

Tenho te 

inventado

todos os

dias 

que

 c r i o

CORAGEM

de apertar

o lápis 

sobre o papel

cada

dia

que 

invento

um capítulo

novo

da sua 

história

Escreve maravilhosamente bem, disse a Geruza sobre um texto do qual eu já nem lembro.

Eu fico achando os pedaços da sua história perdidos em cadernos. Uma mania antiga de escrever à mão que acho que herdei da época do pré, da época da MO-LA, a palavra primeira. Sabia, Estela, que essa foi a primeira palavra que eu li? Eu lembro até hoje, trinta e quatro anos depois… Quem diria que aquela palavra ia trazer a gente aqui?

Esse seu texto represado aqui nesse corpo ta parado há tanto tempo que não tá servindo mais nem pra mosquito da dengue. 

Ele precisa sair.

Escoar

Achar o curso 

de um

R I O

Desaguar num

mar

Virar Capa da 

Fábrica.

Sei 

S

ó

n

ã

o

d

á

p

r

a

f

i

c

a

r

a

s

s

i

m

                                                                         caído………………………………………………..

…………………………………………………………………………………………………pra sempre

Infinitude

Eu limpava

Olhava pela janela e um céu muito azul se estendia lá fora. Algumas nuvens brancas se acomodavam sobre o telhado da varanda que ficava do outro lado do quintal. O balanço solitário não se movia nada. Estava quente e não ventava.

Com o bombril, esfreguei fortemente a panela para arrancar o molho seco da carne do almoço. Os restos de comida começaram a se soltar e a se desfazer na mistura de água e detergente. Logo desceram pelo ralo, como minha vontade de estar ali. Uma rolinha pousou na mureta baixa que separava a varanda do quintal. Com o bico, esfregou as penas de sua asa direita seguida da asa esquerda, como se as lustrasse. Tive mesmo a impressão de que estavam mais brilhantes. Voou baixo até o vaso de jabuticabeira no canto do quintal e começou a bicar. Bicava as jabuticabas uma a uma com satisfação. Depois de deleitar-se com as frutas macias e doces, foi até o chão e bebeu a água de uma poça que ainda não havia secado.

Um pouco antes, o quintal havia sido lavado. Enquanto ensaboava os pratos, eu observava com curiosidade a audácia da pequena ave que entrava no quintal alheio e comia e bebia como se tudo estivesse ali para lhe servir. Era a rainha do quintal, apesar de pequena.

 Tinha uma cor amarronzada que me lembrava os cascalhos das árvores de Peixoto. Lá, represa e montanhas tinham a mesma cor: um verde vivo que abrigava as mais diferentes espécies: sonho, liberdade, esperança. Eu subia no tambor do pesqueiro e pulava o mais alto que conseguia. Caía fundo na água e fazia muita força para conseguir voltar. Quando alcançava a superfície, estava sempre sem ar. Era uma sensação de quase morte com mais uma vez. Ofegante, nadava apressada até o cabo de aço que ficava preso no pesqueiro e atravessava o rio até a margem. O coração batia muito forte e o ar vacilava. Me sentava em cima do cabo e descansava dentro da aǵua. Aos poucos, o coração desacelerava e a água antes agitada pelos movimentos do nado intenso, ia serenando, serenando, serenando, até tudo ficar em silêncio. 

Sumíamos.

Tudo era verde. 

Depois, o frio começava a se apossar dos meus braços fazendo com que os pelos claros se eriçassem. Eu nadava até a margem, dessa vez devagar, e subia no pesqueiro para quase morrer outra vez.

Algo ficou preso impedindo a água de escoar. Tirei o resto de comida do ralo, mas ela ainda estava parada, como meus dias. Peguei um pano, embolei e comecei a pressionar  num movimento de vai e vem, até que ela começou a descer cada vez mais rápido e a pia ficou vazia, apenas com a gordura da comida pregada nas beiradas. 

Não cheirava bem.

Aquilo definitivamente não cheirava nada bem.

Enquanto ensaboava a cuba, procurei a rolinha. Ela agora estava descansando no longo varal que cortava a varanda de fora a fora. Parecia satisfeita. 

De súbito, percebeu que não estava sozinha.

Fui pega no meu vouyerismo

A criatura antes pequena e delicada agora assumia uma postura ameaçadora. Me olhando, projetou o peito para frente e bateu as asas bem rápido num vôo rasante. 

Pousou no parapeito da janela, o bico afiado ficou muito próximo a meu nariz. Os olhos miudos e negros penetraram nos meus. 

Me encarou.

As batidas aceleradas de meu coração eram a única coisa que eu ouvia naquele silêncio. 

Eu continuava sem respirar nem me mexer olhando-a nos olhos. 

Aquele negrume me hipnotizava. Ao mesmo tempo em que eu esperava o pior destino, me encantava com sua profundidade. Quando achei que ia me engolir de uma só bicada, volveu seu corpo pra trás, me virou as costas e voou.

Enxaguei a cuba e quando olhei novamente para o céu,  não vi mais a rolinha, apenas o vazio da sua infinitude.

Sobre a escrita de um romance

Eu achava que não éramos dados a rituais. Penso nisso enquanto como o tomate com a barriga encostada na beirada da pia. A roupa suada do dia cheio na escola presencia a perna direita sustentando todo o peso do corpo meio torto.

Você chegava da oficina surrado pelas preocupações do dia. A calça jeans puída e a camisa polo manchada exalavam o perfume de fuligem que nenhum boticário conseguiria reproduzir. Aquele cheiro tomava a cozinha e antes de se despir do ofício que escolheu, cortava o tomate em quatro e comia sem pressa. Era a única coisa que você não fazia correndo. 

Então eu fui fazer a janta e comecei a reparar que o modo como eu puxo a faca para mim tem grandes chances de me arrumar um talho na mão, ou me arrancar um pedaço de um dedo, enfim… Tantos acidentes por vir que é melhor nem pensar, já que vou continuar cortando tudo exatamente do mesmo jeito.

Nós dois sempre fomos dados a riscos.

Entre refogar o arroz e lavar a louça da janta, tantas lembranças… Memórias nossas que eu não quero que se percam no tempo. 

Sinceramente eu achei que quando sentasse para escrever isso aqui,  eu não conseguiria, porque são muitas ideias para botar em ordem. Mas a verdade é que eu fico cozinhando os textos dentro de mim o dia inteiro e quando pego meu caderno mais bonito, aquele que separei só para você, as ideias fluem e me sirvo de um delicioso texto. Eu o saboreio como se fosse a última refeição de um condenado no corredor da morte. 

Uma vez você me disse que ninguém ia ler o que eu escrevo, mas eu nunca levei a sério o que você dizia. Me interessava mesmo era o que você fazia. Entre a solda quente e as folhas de alumínio você construía suas quinquilharias. Esculpia churrasqueiras e fornos, portões basculantes e toda sorte de esquadrias metálicas. Nisso somos diferentes: sou uma artista das palavras e todas as minhas fantasias são verdade.

Pai, desde que Estela saiu batendo a porta, não a encontrei mais. Eu estou escrevendo esse romance desde que fecharam a porta do caixão, mas a verdade é que eu tenho medo de colocar um ponto final e ele ser derradeiro.

Canção triste

As horas do relógio

Escorrem parede abaixo

Como num quadro de Dali

O coração
tum-tum
tum-tum
Derrete em um compasso

Exasperado

S.U.S.P.I.R.O

Hoje
não é de amor

Aqui jaz meu pai

……………………….

No jazigo do meu peito

Andorinha não faz verão
Nem ninho

Longe,
mas nem tanto,
voam pássaros no azul dos

céus (olhos)
Urubus
Prontos pra comer meus restos

Des-pe-da-ça-dos

O vendedor de enciclopédias

Em sua casa, a enciclopédia passava de geração para geração. No domingo após o almoço, todos se reuniam em torno do avô que lia algum verbete com animação. Depois os meninos jogavam bola no quintal de terra batida. À noite, antes de dormir, Teófilo olhava as estrelas e depois adormecia recitando para a mãe tudo o que lembrava do verbete do dia. 

Não completou o segundo grau porque a única escola da cidadezinha em que morava só lhe possibilitou concluir o que chamavam de ginasial. Porém, devido a tudo que as enciclopédias lhe ensinaram, conseguiu com facilidade um trabalho na prefeitura municipal de Nova Horizontina.

De segunda à sexta, batia o ponto das 8hs às 17hs como oficial escriturário, mas seu domingo era sagrado: ia de porta em porta oferecendo enciclopédias. Gostava de ir antes do almoço, pois assim as famílias poderiam ler juntas pelo resto da tarde. Pelo menos era o que ele imaginava. 

Tinha um semblante amigável. Usava o sorriso bobo e inocente para se aproximar dos clientes. Ajeitava os óculos fundo de garrafa e explicava porque era muito melhor pesquisar na nova edição da Barsa do que no Google. “Veja essas fotos do Cerrado! Olha como é muito melhor segurar o livro do que ficar olhando pela tela do computador. Sente aqui a folha, d. Maria. Isso é o conhecimento na palma da sua mão!e passava a mão pela página da enciclopédia oferecendo à senhora simples da vizinhança a mesma sensação.

D. Maria, uma senhora negra de mais de 70 anos era uma das únicas que lhe atendia. Geralmente, as pessoas preferiam as testemunhas de Jeová na sua porta do que o jovem rapaz já um pouco calvo. Ela sempre lhe ouvia com paciência e repetia “Ah, meu filho, eu não sei ler. Quando quero saber alguma coisa, pergunto em voz alta pro telefone e ele me responde em voz alta também. Foi meu neto que me ensinou.”

Outros vizinhos compraram vez ou outra algum volume pela consideração que tinham com o avô do rapaz, mas já havia algum tempo que ninguém mais lhe atendia..

Certo domingo, já passava da uma da tarde, ninguém havia lhe aberto a porta. Sentou-se cabisbaixo no meio-fio da calçada, abraçado  a um volume. O sol estava quente e percebeu uma figura à sua frente. Era um garoto miúdo, sujo e faminto. “Tem um trocado, tio?” Revirou os bolsos em busca de alguma moeda. Em vão. Percebendo a fome do menino, levou-o ao boteco do seu Sebastião e lhe pagou um lanche fiado.

“Tio, que livro é esse?” 

“É uma enciclopédia” 

O menino fez cara de quem não entendeu. Então, Teofilo remendou –  “É um livro que explica as coisas do mundo”.

“Todas as coisas?”

Teófilo olhou para o volume que tinha em mãos:

“Bom, esse é sobre todas as coisas que começam com a letra C”

“Lê uma coisa para mim, tio?” – pediu o menino enquanto bebia o resto do Guaraná.

Animado, o rapaz abriu uma página qualquer e começou “O Cerrado é considerado o maior bioma da América do…”

 “ Tio – interrompeu o menino – como assim bioma?”

Teófilo parou. Examinou aqueles grandes olhos amendoados. Na boca faltavam alguns dentes e outros já estavam apodrecidos. Não tinha reparado muito no menino e percebeu que devia ter uns 8, 9 anos, mas a feição lhe aparentava mais idade. Vestia apenas uma bermuda rasgada e tinha os pés descalços. Perguntou então com quem morava e ele respondeu que com a mãe e os irmãos num barraco perto do rio.

O menino engoliu o último pedaço de lanche, agradeceu e já ia indo, mas Teófilo mirou-lhe os olhos indagando: 

“Te vejo aqui no domingo que vem?”

“Fechado!” – respondeu o menino com um sorriso alegre.

Teófilo não oferece mais os livros de porta em porta, mas reserva os domingos para lê-los junto a Tiago, que desde então, nas noites de domingo, também recita para a mãe tudo o que aprendeu sobre o verbete do dia.

Clique

A gente nunca imagina quando a fotografia vai deixar de ser colorida.

Nem quando o sorriso alinhado estará para sempre cerrado.

o toque dos meus dedos no cabelo fino tomando café à mesa

é agora memória embaçada

rarefeita em versos

Nossos peitos não mais se encontram em abraço apertado depois de minhas longas ausências.

De quando em quando

surge a foto de um clique que durou um minuto

mas

que 

eu 

queria 

congelar

numa

E   T   E   R   N   I    D    A    D    E

Roda gigante

Entrei no brinquedo meio que obrigada. Eu nem estava na fila. Pelo menos nem sabia que estava. Entreguei o ticket pro carinha da entrada vestido de soldadinho de chumbo e me sentei sozinha na cabine para oito pessoas. Guardei a metade picotada do ticket no bolso de fora da mochila, junto com o fone de ouvido quebrado. Longe, a placa anunciava “a maior roda gigante da cidade, do estado, da América Latina”.

Meu braço sentia o metal gelado porque fiz questão de me sentar na ponta. Se estava ali, por vontade ou não, melhor viver a realidade, então. “Minha filha, a verdade é a verdade”, diria meu pai e também minha mãe. Afivelei o cadarço em torno da cintura, como mandava a instrução de segurança enquanto o soldadinho trancava a porta da cabine com uma imensa chave. Era antiga e tinha detalhes rebuscados com cor de vida amanhecida. “Se quiser parar a viagem a qualquer momento, respire fundo três vezes, reze para todos os santos e aprecie a vista: a roda só gira pra um lado”. Dito isso, apagou a vela de sétimo dia que segurava e marchou timidamente de volta a seu posto.

Aquilo começou a subir lentamente rangendo alto a metade esquerda do meu cérebro numa viagem que dava a impressão de durar três eternidades pai filho e Espírito Santo amém. Não tinha subido nem a metade do terço e eu me agarrava à mochila feito criancinha pequena assustada. No solo distante, meia dúzia de pessoas assistia alheia a cena.

Rangia rangia rangia cada vez mais alto agora no cérebro inteiro. Aquilo me dava uma dor de cabeça insuportável e eu só queria dormir, mas nem a pau que fecharia os olhos, pois queria evitar de ver. Conforme subíamos, o ar foi ficando rarefeito e perdi a oportunidade de respirar três vezes. Minha vista escureceu e senti o vazio passar o braço em torno de mim. Olhei assustada meio vesga e ele me disse que estava ali desde o começo. Era corpulento e forte e me envolvia quase toda quando me abraçava. Tive medo e fui afundando minha cabeça em seu peito até morrer de novo.

O céu de nuvens muito escuras e espessas derramou gotas grossas de chuva torrencial. Olhei pro céu e abri a boca. Muita água entrou e foi consumindo minha garganta-anta-anta até não borbulhar mais e eu morrer. Então começou a girar de novo e descer. O cadarço desamarrou e fiquei à própria sorte porque o vazio decidiu brincar de esconde-esconde. Ainda rangia muito os dentes e aquele bruxismo todo estava me deixando louca. Louca de vez! Foi quando escorreguei num pingo grande e caí da cabine. Achei que ia morrer mais uma vez, mas a barra da minha calça ficou presa na ferragem do trambolho.

De cabeça para baixo, as coisas pareciam melhores.

A calça rasgou e deixou à mostra as grandes feridas cheias de pus e sangue que subiam pelas pernas. Caí na cabine debaixo e quase morri, mas o vazio me aplicou a manobra de PCR e meu cérebro voltou a bater. Dei falta da mochila e comecei a chorar feito um bebê. Então o ele me botou no colo e ninou.

A viagem na maior roda gigante da cidade, do estado, da América, do planeta Terra acabou e aterrissamos em nome do pai filho Espírito Santo.

Entreguei o ticket pro soldadinho de chumbo, que me devolveu a metade picotada.