Clique

A gente nunca imagina quando a fotografia vai deixar de ser colorida.

Nem quando o sorriso alinhado estará para sempre cerrado.

o toque dos meus dedos no cabelo fino tomando café à mesa

é agora memória embaçada

rarefeita em versos

Nossos peitos não mais se encontram em abraço apertado depois de minhas longas ausências.

De quando em quando

surge a foto de um clique que durou um minuto

mas

que 

eu 

queria 

congelar

numa

E   T   E   R   N   I    D    A    D    E

Roda gigante

Entrei no brinquedo meio que obrigada. Eu nem estava na fila. Pelo menos nem sabia que estava. Entreguei o ticket pro carinha da entrada vestido de soldadinho de chumbo e me sentei sozinha na cabine para oito pessoas. Guardei a metade picotada do ticket no bolso de fora da mochila, junto com o fone de ouvido quebrado. Longe, a placa anunciava “a maior roda gigante da cidade, do estado, da América Latina”.

Meu braço sentia o metal gelado porque fiz questão de me sentar na ponta. Se estava ali, por vontade ou não, melhor viver a realidade, então. “Minha filha, a verdade é a verdade”, diria meu pai e também minha mãe. Afivelei o cadarço em torno da cintura, como mandava a instrução de segurança enquanto o soldadinho trancava a porta da cabine com uma imensa chave. Era antiga e tinha detalhes rebuscados com cor de vida amanhecida. “Se quiser parar a viagem a qualquer momento, respire fundo três vezes, reze para todos os santos e aprecie a vista: a roda só gira pra um lado”. Dito isso, apagou a vela de sétimo dia que segurava e marchou timidamente de volta a seu posto.

Aquilo começou a subir lentamente rangendo alto a metade esquerda do meu cérebro numa viagem que dava a impressão de durar três eternidades pai filho e Espírito Santo amém. Não tinha subido nem a metade do terço e eu me agarrava à mochila feito criancinha pequena assustada. No solo distante, meia dúzia de pessoas assistia alheia a cena.

Rangia rangia rangia cada vez mais alto agora no cérebro inteiro. Aquilo me dava uma dor de cabeça insuportável e eu só queria dormir, mas nem a pau que fecharia os olhos, pois queria evitar de ver. Conforme subíamos, o ar foi ficando rarefeito e perdi a oportunidade de respirar três vezes. Minha vista escureceu e senti o vazio passar o braço em torno de mim. Olhei assustada meio vesga e ele me disse que estava ali desde o começo. Era corpulento e forte e me envolvia quase toda quando me abraçava. Tive medo e fui afundando minha cabeça em seu peito até morrer de novo.

O céu de nuvens muito escuras e espessas derramou gotas grossas de chuva torrencial. Olhei pro céu e abri a boca. Muita água entrou e foi consumindo minha garganta-anta-anta até não borbulhar mais e eu morrer. Então começou a girar de novo e descer. O cadarço desamarrou e fiquei à própria sorte porque o vazio decidiu brincar de esconde-esconde. Ainda rangia muito os dentes e aquele bruxismo todo estava me deixando louca. Louca de vez! Foi quando escorreguei num pingo grande e caí da cabine. Achei que ia morrer mais uma vez, mas a barra da minha calça ficou presa na ferragem do trambolho.

De cabeça para baixo, as coisas pareciam melhores.

A calça rasgou e deixou à mostra as grandes feridas cheias de pus e sangue que subiam pelas pernas. Caí na cabine debaixo e quase morri, mas o vazio me aplicou a manobra de PCR e meu cérebro voltou a bater. Dei falta da mochila e comecei a chorar feito um bebê. Então o ele me botou no colo e ninou.

A viagem na maior roda gigante da cidade, do estado, da América, do planeta Terra acabou e aterrissamos em nome do pai filho Espírito Santo.

Entreguei o ticket pro soldadinho de chumbo, que me devolveu a metade picotada.

Da janela

Todos os dias me sento perto da janela

Os raios de sol penetram minhas folhas brilhantes 

Me nutrindo de luz

A luz é pra todos

Avisto 

minhas companheiras 

Árvores 

se banhando no mesmo brilho do  

Domingo claro e preguiçoso 

Só consigo ver o topo de suas cabeças

Porque as casas atrapalham 

a vista 

São muitas e moram juntas

verdejando o concreto

duro e 

Pesado.

Pássaros voam 

Pra lá e pra cá

Em cima delas

Performando

no céu gelado do inverno

Desejo estar ali,

Por um momento, 

E saber como é viver em

Comunidade.

Ana vem e borrifa água 

em minhas folhas

Acaricia algumas delas 

Me fala coisas com carinho 

Senta-se ao meu lado

Com as pernas à mostra

Nutrindo-se de

Sol

também.

Me alegro

Vivemos em 

Comunhão

Assimetrias

Eu tinha 9 pra 10 anos e estava tomando banho quando olhei pra minha barriga e percebi que era muito grande. Me lembro nitidamente da cena: a água escorrendo e descendo pela barriga grande e branca que não me deixava ver a vagina, nem as coxas.

Foi a primeira vez que senti nojo de mim.

Bem nessa época, minha mãe estava grávida da minha irmã caçula, que nasceu algum tempo depois. Me lembro claramente da cena de sua chegada na casa: minha mãe a segurando no colo, exibindo muito triunfante a nova criança.

Aquela cabeça redonda e careca me fascinava e ao mesmo tempo me amedrontava. Era difícil para alguém com minha barriga competir com aquele bebê alvo de olhos azuis. 

Eu definitivamente tinha perdido meu lugar no mundo. O mais gozado é que até aquele momento eu nem sabia que tinha um.

O bebê foi crescendo e eu também. Ela se tornou uma menina dócil e eu uma irmã mais velha dedicada. Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele, não é mesmo?

Mas ela nunca foi minha inimiga. Muito pelo contrário: sempre foi minha fã número 1. 

Eu a buscava no pré perto de casa. Quando me via, ela vinha correndo com sua lancheira e me abraçava, apertando seu cabelo loiro e cacheado contra minha barriga fofa. Depois, me dava a mão e voltávamos caminhando para casa e ela me contava sobre as coisas de seu dia pequeno de criança de 5 anos.  Me lembro de uma vez em que ela chegou da escola, devia estar na primeira série, e me mostrou o desenho que tinha feito de nós duas de mãos dadas dentro de um coração. 

Ela me amava.

Eu a amava de volta. 

Um dia, ela simplesmente virou adulta. 

Assim: do nada. 

Mudou até de país.

Hoje me contou que tirou essa foto e que nunca gostou de seu sorriso assimétrico.

Mas essa boca rosada em forma de coração, com dentes grandes e levemente tortinhos é o mesmo sorriso que adorava encontrar minha barriga redonda como a lua na porta do prezinho. 

É com ele que agora divido as preocupações da vida adulta e com quem há 26 anos divido as mesmas histórias de família. 

O amor está mesmo é nas assimetrias.

Você não voltou

Eu esperei

Ia dizer que chegou cesta

Nova

Ia dizer pro defensor 

Como você estava preocupado com a multa

Que queria continuar a vida

tinha me dito,

Thiago 

Te esperei 

Pra juntos contarmos à justiça

Que se não tem dinheiro pro tênis 

Quem dirá pra multa 

“De chinelo não pode entrar lá, dona”

E olhava pro chinelo surrado

Sujo

Como a roupa toda que vestia

Eu sei que você é asseado 

É que sabão em pó não limpa

Miséria

Esperei pra contar pro juiz 

Como apesar da vida dura

Há em você ainda

Doçura

Deve ser do tempo em que era criança 

E vender pano no sinal

Era só um jeito de ficar na barra da saia 

da Vó

Será que você sabe como é

Bonito

Com seus cabelos negros e sobrancelhas 

Espessas?

Andei aflita pelos corredores gelados da

Escola

Te esperei 

Mas você não voltou 

Te escrevo

Thiago

Porque queria te abraçar 

Te escrevo 

Te escrevo porque mereces 

Pelo menos a

Dignidade 

Da poesia.

Quando me olha

Me olha profundo

Tem a idade da minha irmã,

penso

“Liga no fórum pra mim, dona?”

Me olha

Lembro de minha mãe 

querer outro filho além de nós três 

Pede dinheiro pro gás

Outra cesta

Tem fome.

São olhos castanhos

bonitos como os lá de casa,

penso.

Está solto, 

porém as mãos 

Atadas

Mora em lugar algum

Dinheiro para a pena

Não tem 

Quando fala do delito

olha pra baixo

Alô, é do fórum?

pergunta a agente escolar

Ele tem que procurar um defensor público, 

então?

“Nem sei onde fica isso, dona?”

Olha de canto, 

já irritado.

Volta, amanhã, Thiago.

12h45 te esperamos pro almoço

Depois,

falamos com o defensor.

“E o gás, dona?”

Dinheiro não temos 

Vem pro almoço. 

Não esquece!

Me olha

mudo

Despedaçado

Baixa a cabeça e leva 

os pés sujos e maltratados

Vão para lugar

nenhum.

Podia ser meu irmão,

penso.

Meus olhos 

Choram.

Será que ele 

volta?

Água quente

Caía

Caía e molhava 

o corpo da mulher

Acariciava-lhe o couro cabeludo

Massageava-lhe levemente as costas cansadas

Descia pelo rosto e beijava-lhe a boca de lábios finos

A língua 

se punha para fora respondendo ao beijo

engolindo a água com vontade.

Lambia-lhe a nuca e o pescoço

buscando o colo macio

As pintas marrons já dilatadas

Deleitadas.

Escorreu até o bico rosado

parou ofegante
Gotejava.

O vapor subia até o teto

tomava as paredes

embaçava o espelho

Testemunhas oculares.

A água envolveu numa dança

circular

o abdome lunar.

Rodopiavam.

Entrou no umbigo e ali ficou

Represada

Como se tomasse fôlego.

Pele

Poros

Pelos 

Púbis

Tudo ardia.

No meio das pernas

fluídos e água se misturaram

Regozijaram-se

Moles

desceu preguiçosamente 

pelas coxas fartas

até os pés.

Num movimento de adeus, 

chupou-lhe ainda o dedão

causando arrepios.

Então

sumiu pelo ralo

Rarefeitas

Satisfeitas.

Pés putos

Seu corpo pesa sobre nós

Você pisa tão duro

Parece que quer esmagar todas as flores do caminho

Chutar pra longe todas as pedras

Olha, elas também fazem parte!

Só queremos ir mais devagar

Sair do piloto automático e sentir o chão todo

Do calcanhar à ponta dos dedos

Como e onde estamos pisando? 

Precisamos saber!

Passamos o dia inteiro presos nessas meias grossas

As tramas do tecido nos amordaçam

nossa função é o movimento

Mas estamos imobilizados no tênis esportivo

É uma contradição!

Queremos respirar

Ser postos para cima 

Nus

Completamente nus

Apenas sentindo os raios de sol

E o balançar da rede

Poder separar nossos dedos e movimentá-los 

À vontade

Pra lá e pra cá.

Tanto tempo faz que não nos leva a passeio

Queremos sentir novamente a grama fofa e úmida do amanhecer.

Correr na areia quente e fofa até o mar

Aahhh o mar!

Flutuar no balanço das ondas

E nem lembrar da rigidez do asfalto

Da dureza das ruas e dos dias.

Joga logo fora todos esses sapatos que nos machucam!

Nem você aguenta mais usar o que não te serve.

E as viagens que nos prometeu?

Heim?

Já esqueceu como foi a andança pela Patagônia?

Trilhas tão diversas

Tão longas

E lindas.

E o resto da América do Sul?

E o mochilão pela Europa?

Mas o pior não é o marasmo apertado dos nossos dias,

Sabe?

É a ingratidão 

Queremos que nos olhe

Nos respeite.

Reconheça que sobre nós não há queixas

Por que você só olha para aquilo que acha um problema?

Sinceramente, 

Pé direito e Pé esquerdo.

Bernardo

Bernardo andava rapidamente pela areia macia buscando alguma comida. Tinha predileção por restos de tamboril, seu peixe favorito, mas também gostava bastante de dejetos, achava-os adocicados. Certa vez, encontrou uma carcaça de Bicuda quase inteira. Parecia fresca: devia ter uns dois dias. Se aproximou e com a garra direita arrancou um belo pedaço. Saboreou aquele banquete por algumas horas, até o cansaço chegar. Andara bastante naquele dia, como em todos os outros, à procura de boas refeições. Era a gula o pecado mais presente nos seus dias e do qual jamais se redimiria: comia tudo o que encontrava pela frente. 

E adorava.

Além de glutão era também ladrão. Qualquer casa mais interessante e maior do que a sua, logo se tornava objeto de desejo e ele esperava a hora certa para invadir. Certa vez, encontrou uma bem sofisticada. Tinha uma cor interessante, as paredes texturizadas tinham um aspecto rajado de uma cor que lembrava nuances ora salmão, ora marfim. A  abertura frontal tinha o tamanho ideal para deixar seu corpo preso com a metade para fora, com as antenas e olhos bem posicionados do jeito que ele gostava. Além de tudo, era muito espaçosa. Olhou ao redor para ver se estava sozinho e enfiou as garras para se certificar de que não havia ninguém nos fundos. Sentiu um objeto liso e redondo. Curioso, segurou com cuidado e o tirou de lá de dentro, trazendo próximo aos olhos. Olhou fascinado para a pequena bola que reluzia e jogava luz aos corais um pouco à frente. Por um breve momento, apenas sentiu o balanço suave da maresia. Então se lembrou que precisava entrar logo, antes que alguém chegasse. Rapidamente, jogou a parte mais mole de seu corpo para dentro, aconchegando a pérola no fundo, junto de si

Resolveu subir até a beira da praia para aproveitar o calor do sol e a areia quente típicos do verão e que logo se despediria. Encontrou um monte fofo de areia perdido entre algumas pedras e se alojou ali, aproveitando a brisa. Estava relaxado sentindo o sol bater em suas pequenas presas e patas quando uma concha muito bonita lhe chamou a atenção.

Era a concha mais bonita que já tinha visto.