Xurumelas de uma escritora (Ou do caos ingovernável de mim mesma)
Eu prometi que ia dedicar uma hora dos meus dias para esse romance. Agora são 20h50 e nada.
O choro do bebê me incomoda. Mais do que isso: me irrita e enfurece.
Fúria: ultimamente, só tenho isso dentro de mim
Na real, eu nem sei porque insisto em escrever se no fundo eu acredito que tudo isso é em vão.
Eu fui em vão.
Sou em vão.
Um vão.
Tenho medo de Estela ser ruim e eu descobrir a grande farsa que sou.
Uma mulher sem propósito.
Sem marido. Sem filhos. Com um emprego ruim
Sem sexo
e distante da própria mãe.
Até que enfim, ele parou de berrar.
Aparentemente, além disso,
não gosto tanto assim de criança como eu achava.
Qual é o exercício de escrita de sexta, mesmo?
O da casa?
Eu não sei, não me lembro.
Já faz tempo que fiz esse curso de escrita e a Geruza não me mandou ainda.
Eu não queria deixar pra última hora.
Mas eu já tinha escrito sobre a casa de Estela. Eu visitei a casa dela quando estava em busca de alguma informação sobre seu paradeiro. Ficava numa rua morta e a fachada amarela tinha partes escurecidas pelo mofo. O muro era baixo e o portão de ferro fazia um U invertido. Puxei o ferrolho para cima e empurrei com força o portão pesado que se abriu inteiro. Meu pai, bom serralheiro que era, daria um jeito de fazer um portão menor naquele portão imenso, eu pensei. No pequeno jardim da frente, pedras e um canteiro que parecia contornar a casa. Ali jogado uma pá e veneno para pragas de jardim. Duas janelas de ladrilho colorido deixavam ver de modo embaçado os móveis velhos da sala. Estela diria que eram Vintage. “Velha, é sua avó!”. Procurei por alguma chave escondida embaixo do tapete ou no vaso de espada de São Jorge. Nada. Restava o fundo da casa.
Quando eu falei do corpo no necrotério, eu tava dizendo na verdade da minha paralisia escritiva para fazer esse livro. Um corpo paralizado diante das possibilidades. E se eu boto no papel a história dessa mulher velha, desbocada e dona de um Cabaré e descubro, novamente, que sou uma escritora medíocre? E se eu conto essa história e ela vira um sucesso? Medo é uma palavra que tem permeado a invenção de Estela.
Sim, Estela, eu te inventei.
Tenho te
inventado
todos os
dias
que
c r i o
CORAGEM
de apertar
o lápis
sobre o papel
cada
dia
que
invento
um capítulo
novo
da sua
história
Escreve maravilhosamente bem, disse a Geruza sobre um texto do qual eu já nem lembro.
Eu fico achando os pedaços da sua história perdidos em cadernos. Uma mania antiga de escrever à mão que acho que herdei da época do pré, da época da MO-LA, a palavra primeira. Sabia, Estela, que essa foi a primeira palavra que eu li? Eu lembro até hoje, trinta e quatro anos depois… Quem diria que aquela palavra ia trazer a gente aqui?
Esse seu texto represado aqui nesse corpo ta parado há tanto tempo que não tá servindo mais nem pra mosquito da dengue.
Ele precisa sair.
Escoar
Achar o curso
de um
R I O
Desaguar num
mar
Virar Capa da
Fábrica.
Sei
lá
S
ó
n
ã
o
d
á
p
r
a
f
i
c
a
r
a
s
s
i
m
caído………………………………………………..
…………………………………………………………………………………………………pra sempre
Não desiste, Estela!!!
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