Infinitude

Eu limpava

Olhava pela janela e um céu muito azul se estendia lá fora. Algumas nuvens brancas se acomodavam sobre o telhado da varanda que ficava do outro lado do quintal. O balanço solitário não se movia nada. Estava quente e não ventava.

Com o bombril, esfreguei fortemente a panela para arrancar o molho seco da carne do almoço. Os restos de comida começaram a se soltar e a se desfazer na mistura de água e detergente. Logo desceram pelo ralo, como minha vontade de estar ali. Uma rolinha pousou na mureta baixa que separava a varanda do quintal. Com o bico, esfregou as penas de sua asa direita seguida da asa esquerda, como se as lustrasse. Tive mesmo a impressão de que estavam mais brilhantes. Voou baixo até o vaso de jabuticabeira no canto do quintal e começou a bicar. Bicava as jabuticabas uma a uma com satisfação. Depois de deleitar-se com as frutas macias e doces, foi até o chão e bebeu a água de uma poça que ainda não havia secado.

Um pouco antes, o quintal havia sido lavado. Enquanto ensaboava os pratos, eu observava com curiosidade a audácia da pequena ave que entrava no quintal alheio e comia e bebia como se tudo estivesse ali para lhe servir. Era a rainha do quintal, apesar de pequena.

 Tinha uma cor amarronzada que me lembrava os cascalhos das árvores de Peixoto. Lá, represa e montanhas tinham a mesma cor: um verde vivo que abrigava as mais diferentes espécies: sonho, liberdade, esperança. Eu subia no tambor do pesqueiro e pulava o mais alto que conseguia. Caía fundo na água e fazia muita força para conseguir voltar. Quando alcançava a superfície, estava sempre sem ar. Era uma sensação de quase morte com mais uma vez. Ofegante, nadava apressada até o cabo de aço que ficava preso no pesqueiro e atravessava o rio até a margem. O coração batia muito forte e o ar vacilava. Me sentava em cima do cabo e descansava dentro da aǵua. Aos poucos, o coração desacelerava e a água antes agitada pelos movimentos do nado intenso, ia serenando, serenando, serenando, até tudo ficar em silêncio. 

Sumíamos.

Tudo era verde. 

Depois, o frio começava a se apossar dos meus braços fazendo com que os pelos claros se eriçassem. Eu nadava até a margem, dessa vez devagar, e subia no pesqueiro para quase morrer outra vez.

Algo ficou preso impedindo a água de escoar. Tirei o resto de comida do ralo, mas ela ainda estava parada, como meus dias. Peguei um pano, embolei e comecei a pressionar  num movimento de vai e vem, até que ela começou a descer cada vez mais rápido e a pia ficou vazia, apenas com a gordura da comida pregada nas beiradas. 

Não cheirava bem.

Aquilo definitivamente não cheirava nada bem.

Enquanto ensaboava a cuba, procurei a rolinha. Ela agora estava descansando no longo varal que cortava a varanda de fora a fora. Parecia satisfeita. 

De súbito, percebeu que não estava sozinha.

Fui pega no meu vouyerismo

A criatura antes pequena e delicada agora assumia uma postura ameaçadora. Me olhando, projetou o peito para frente e bateu as asas bem rápido num vôo rasante. 

Pousou no parapeito da janela, o bico afiado ficou muito próximo a meu nariz. Os olhos miudos e negros penetraram nos meus. 

Me encarou.

As batidas aceleradas de meu coração eram a única coisa que eu ouvia naquele silêncio. 

Eu continuava sem respirar nem me mexer olhando-a nos olhos. 

Aquele negrume me hipnotizava. Ao mesmo tempo em que eu esperava o pior destino, me encantava com sua profundidade. Quando achei que ia me engolir de uma só bicada, volveu seu corpo pra trás, me virou as costas e voou.

Enxaguei a cuba e quando olhei novamente para o céu,  não vi mais a rolinha, apenas o vazio da sua infinitude.

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