Roda gigante

Entrei no brinquedo meio que obrigada. Eu nem estava na fila. Pelo menos nem sabia que estava. Entreguei o ticket pro carinha da entrada vestido de soldadinho de chumbo e me sentei sozinha na cabine para oito pessoas. Guardei a metade picotada do ticket no bolso de fora da mochila, junto com o fone de ouvido quebrado. Longe, a placa anunciava “a maior roda gigante da cidade, do estado, da América Latina”.

Meu braço sentia o metal gelado porque fiz questão de me sentar na ponta. Se estava ali, por vontade ou não, melhor viver a realidade, então. “Minha filha, a verdade é a verdade”, diria meu pai e também minha mãe. Afivelei o cadarço em torno da cintura, como mandava a instrução de segurança enquanto o soldadinho trancava a porta da cabine com uma imensa chave. Era antiga e tinha detalhes rebuscados com cor de vida amanhecida. “Se quiser parar a viagem a qualquer momento, respire fundo três vezes, reze para todos os santos e aprecie a vista: a roda só gira pra um lado”. Dito isso, apagou a vela de sétimo dia que segurava e marchou timidamente de volta a seu posto.

Aquilo começou a subir lentamente rangendo alto a metade esquerda do meu cérebro numa viagem que dava a impressão de durar três eternidades pai filho e Espírito Santo amém. Não tinha subido nem a metade do terço e eu me agarrava à mochila feito criancinha pequena assustada. No solo distante, meia dúzia de pessoas assistia alheia a cena.

Rangia rangia rangia cada vez mais alto agora no cérebro inteiro. Aquilo me dava uma dor de cabeça insuportável e eu só queria dormir, mas nem a pau que fecharia os olhos, pois queria evitar de ver. Conforme subíamos, o ar foi ficando rarefeito e perdi a oportunidade de respirar três vezes. Minha vista escureceu e senti o vazio passar o braço em torno de mim. Olhei assustada meio vesga e ele me disse que estava ali desde o começo. Era corpulento e forte e me envolvia quase toda quando me abraçava. Tive medo e fui afundando minha cabeça em seu peito até morrer de novo.

O céu de nuvens muito escuras e espessas derramou gotas grossas de chuva torrencial. Olhei pro céu e abri a boca. Muita água entrou e foi consumindo minha garganta-anta-anta até não borbulhar mais e eu morrer. Então começou a girar de novo e descer. O cadarço desamarrou e fiquei à própria sorte porque o vazio decidiu brincar de esconde-esconde. Ainda rangia muito os dentes e aquele bruxismo todo estava me deixando louca. Louca de vez! Foi quando escorreguei num pingo grande e caí da cabine. Achei que ia morrer mais uma vez, mas a barra da minha calça ficou presa na ferragem do trambolho.

De cabeça para baixo, as coisas pareciam melhores.

A calça rasgou e deixou à mostra as grandes feridas cheias de pus e sangue que subiam pelas pernas. Caí na cabine debaixo e quase morri, mas o vazio me aplicou a manobra de PCR e meu cérebro voltou a bater. Dei falta da mochila e comecei a chorar feito um bebê. Então o ele me botou no colo e ninou.

A viagem na maior roda gigante da cidade, do estado, da América, do planeta Terra acabou e aterrissamos em nome do pai filho Espírito Santo.

Entreguei o ticket pro soldadinho de chumbo, que me devolveu a metade picotada.

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